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Por que você pode confiar mais em quem chora no trabalho?

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Por que você pode confiar mais em quem chora no trabalho?

Durante minha vida inteira, fui ensinada que chorar é uma fraqueza.

Das brigas com primos e colegas de escola até o mundo corporativo, momentos de falta de controle emocional que resultavam em choro viraram uma perseguição mental pra mim.

  • “Olha lá ela chorando igual menininha de novo”.
  • “Não acredito que você vai chorar de novo, isso é drama”.
  • “Ao chorar, você me mostra que não aguenta a pressão”

Por melhor que eu fosse, ou por maior que fosse minha entrega e meu nível de dedicação, um único episódio de choro num dia mais zuado poderia colocar tudo em cheque.

Como sempre quis crescer na carreira, fui dando jeitos de “engolir o choro”. Estudei técnicas, fiz terapia e até cheguei a tomar remédio antes de chegar ao trabalho para não “correr o risco” de chorar em dias em que não estava bem. Eu tinha vergonha não só do choro, mas do que o choro representava na minha imagem perante aos outros.

Você é boa. Mas não é boa o suficiente.

Hoje, com um pouco mais de casca e aprendizado, entendo que o choro gera esse preconceito por alguns motivos:

  1. Ele deixa as pessoas desconfortáveis: muitas não sabem nem como reagir nessas situações.
  2. É algo cultural:por muito tempo, as pessoas mais racionais e aparentemente frias foram subindo mais rápido na carreira e, por associação, essa é a imagem que fazemos sobre pessoas bem-sucedidas.
  3. É algo ligado, de forma pejorativa, à suposta “fragilidade feminina” (alô, passado!): quem nunca ouviu “aquela líder é boa porque é igual homem”? Do mesmo jeito que o choro é ligado a uma fraqueza naturalmente feminina, a racionalidade e o controle emocional se vincularam à força masculina, como se o emocional e o racional fossem binariamente ligados ao gênero de cada pessoa. Aliás, há muito tempo o mundo não é binário.
  4. O choro remete à imperfeição: Durante nossa vida, fomos ensinados que sucesso está ligado a sermos imbatíveis, perfeitos, sem fragilidades. O choro simboliza o contrário dessa perfeição inabalável.

Mas a verdade é que a perfeição não necessariamente – ou quase nunca – leva à felicidade. A perfeição muitas vezes esconde as dores embaixo do tapete e só revela a imagem que você acredita que o mundo quer ver a um custo mental cada vez mais caro. O desejo de ser perfeito tem a ver com a vontade de ser aceito – ao passo que a imperfeição e a vergonha relacionadas ao choro têm a ver com o medo da não aceitação por não ser bom o suficiente.

A maternidade foi meu choque de realidade da perfeição

Ser mãe, pra mim, foi um sonho. Mas, muito além disso, foi um soco no estômago da minha perseguição infundada pela perfeição.

A maternidade chacoalhou as estruturas, levou meu lado emocional pro level hard ultra aggressive e me fez questionar tudo. Eu me questionei como profissional, como pessoa. Questionei minhas prioridades, meus valores, o que era sucesso. Questionei o tempo longe da minha filha. Questionei se eu ia aguentar essa busca pela perfeição ou se ela mesmo fazia sentido. Questionei o que era meu propósito.

Foi com essa cabeça bagunçada que eu voltei a trabalhar. Voltei outra pessoa. Voltei ainda mais emocional. Chorei porque não vi os primeiros passos da minha filha (foi na creche…), chorei porque sentia que não conseguia dar o mesmo gás no trabalho. Aumentei meu próprio chicote mental pela vergonha de não ser boa o suficiente – no trabalho e na vida.

Por outro lado, aquele drive de “ser alguém na vida” também ficou mais forte do que nunca. Afinal, com a maternidade você percebe que o tempo longe dos seus filhos tem que ser muito relevante pra valer a pena.

O esforço de querer me provar jogou de novo as imperfeições debaixo do tapete e me fez continuar buscando por algo que eu nem sabia se queria mais. Durante essa busca, em uma conversa com uma grande referência minha de sucesso profissional, percebi que eu nunca ia chegar lá com esse plano.

“Você é uma das pessoas mais competentes e inteligentes que já conheci, mas, se eu fosse te passar um ponto de melhoria, seria sobre seu lado emocional – ele te atrapalha na carreira. “Quanto mais alto na carreira, menos emoção você pode demonstrar“.

Naquele momento, eu percebi que eu nunca ia chegar lá daquele jeito e que a perfeição, pelo menos pra mim, não dava pra atingir. É como tirar com colher a água de um copo transbordando com a torneira aberta.

“There’s gotta be a better way”- and there is.

Pode demorar mais ou menos tempo (e a maternidade foi um catalisador pra mim), mas uma hora a gente percebe que não dá pra sustentar por muito tempo algo que a gente não é. Se o tempo longe da minha filha tem que valer a pena, a forma como eu aproveito esse tempo e o tipo de pessoa que eu sou em cada coisa que eu faço também faz parte do exemplo que eu dou pra ela.

Por outro lado, não é exatamente um mar de rosas o caminho de aceitar quem a gente é e enxergar nossas fragilidades como fortalezas. Desapegar de quem a gente acha que deveria ser e abraçar quem a gente realmente é exige doses de empatia, evidências e coragem.

Empatia.

Como bem esclarece a Brene Brown nesse vídeo, “empatia gera conexão”. Para ela, a conexão gerada pela empatia só é possível ao assumir a perspectiva do outro sem julgamentos, reconhecendo a emoção e falando sobre isso. Se você olhar bem pra essa definição, ela é o oposto da perfeição racional – mas casa bem com o choro.

Evidências.

Um ambiente seguro e pessoas empáticas me permitiram explorar esse meu lado escondido. Aos poucos, fui testando e sentindo a temperatura da água. Mas a gente só acredita mesmo quando a gente reúne evidências e vive na pele uma situação diferente daquelas vividas no passado.

Cada vez mais, conhecer pessoas me fez quebrar o preconceito que eu percebi que eu mesma tinha formado de mim ao longo dos anos.

Mas a prova de fogo foi uma reunIão que eu nunca vou esquecer. Era fim de trimestre, eu estava há 6 meses na empresa. Estávamos crescendo em ritmo acelerado, as coisas estavam dando certo. Até que recebi a sugestão de meta do último trimestre. Na minha cabeça, era impossível de atingir.

Na hora já pensei no fracasso, na vergonha, no medo de desapontar. E, adivinha: comecei a chorar na frente do fundador e da CEO da empresa. Igual bebê gordo. Socorro.

Pra minha surpresa, ele me deu um lenço, uma água e me perguntou: “conta pra mim a sua relação com metas”. Desabei total, contei sobre como tinha que reportar as notas do colégio à faculdade para o meu pai, sobre todas as vezes que não bati uma meta e me senti um lixo, que fui julgada, que me senti mal, com medo.

Pra mim, meta batida era a única medida de sucesso – e, se eu já antevia que não dava pra bater… Desespero total. Em seguida, ele me contou a relação dele com metas, sobre como a meta pode ser um caminho pra gente sonhar mais alto e pediu pra eu sonhar junto. Juntos, achamos um meio do caminho e combinamos de testar e aprender com o teste.

Ao final, envergonhada, pedi desculpas por ter desabado daquele jeito. Pra minha surpresa, ele me disse: “não vejo problema nenhum. O choro é o seu jeito de transbordar, de mostrar que se importa. Cada um tem o seu e tá tudo bem”. Foi essa evidência que me deu a força que eu precisava para o último tempero.

Coragem.

Coragem tem a ver com mostrar quem você é com o seu coração. Tem a ver com autenticidade. Segundo a mesma Brené e o que ela traz nesse TEDx, é preciso ter coragem de ser imperfeito e abraçar nossa vulnerabilidade como uma medida da nossa coragem. Vulnerabilidade, apesar de ser um risco emocional cheio de incertezas, não é fraqueza: é o combustível das nossas vidas.

Se o choro é um sinal de vulnerabilidade, então isso é algo bom.

Essa jornada, composta por empatia, evidências e muita coragem, fez com que eu conseguisse ressignificar a vergonha do choro como vulnerabilidade – e a vulnerabilidade como algo bom.

Abracei a vulnerabilidade mostrando quem eu sou para quem quisesse ver. Mesmo nos momentos de insegurança e frio na barriga, continuo chorando. Choro de tristeza, de felicidade, choro porque me emociono, porque fico ansiosa. Choro porque me importo. Por que sou uma pessoa. Hoje, chorar pra mim faz bem. Chorar é uma válvula de escape, um jeito de transbordar e isso não me torna uma profissional ruim – muito pelo contrário.

Duas consequências boas vieram de tudo isso. A primeira é que, quando nos mostramos vulneráveis, encorajamos mais pessoas a serem vulneráveis e, com isso, mais pessoas à nossa volta podem ser quem elas são. A segunda é que hoje, mais do que nunca, eu valorizo, confio e me inspiro nas pessoas que choram e abraçam sua vulnerabilidade comigo.

Esse segundo ponto, por mais que pareça irracional, tem um lado super lógico. Empiricamente, vejo hoje qualidades incríveis de pessoas expõem sua vulnerabilidade – muitas vezes através do choro:

  • São pessoas verdadeiras: elas não precisam fingir que são quem não são – elas assumem o risco de mostrar quem realmente são;
  • São pessoas que se importam: a carga emocional sempre envolve algo que importa pra gente. Seja positivo ou negativo, é algo que significa muito;
  • São pessoas que se arriscam: afinal, todo risco tem incerteza e, para enfrentá-lo, vulnerabilidade é preciso;
  • São pessoas parceiras: A conexão gerada pela vulnerabilidade traz parceiros leais pra vida, não só no ambiente profissional;
  • São pessoas corajosas: Assumir seus sentimentos e medos é o primeiro passo para enfrentá-los e, com isso, encontrar caminhos de solução.

Se você ainda tem vergonha de chorar, tenho uma mensagem pra você.

Infelizmente, a vergonha e o medo de não sermos o suficiente ainda são parte da nossa cultura. Desse modo, muito embora você possa se sentir assim, isso também quer dizer que há mais pessoas como você.

Você pode ser a pessoa que começa a conexão. Não vou mentir: pode ser arriscado. O outro lado pode não corresponder – seja por não estar pronto ou por não saber o que é empatia. Nesse caso, há mais caminhos, mais opções, mais lugares. Por outro lado, seja na primeira ou na próxima tentativa, imagina se der certo? Conexões verdadeiras podem nos levar a lugares inimagináveis sem perder nossa essência e a vulnerabilidade é o caminho para nos levar a essa conexão.

Se você ainda tem preconceito de quem chora, eu gostaria de te fazer um convite.

Eu respeito e entendo seu preconceito. Ao desconfiarmos de uma pessoa que chora, temos medo que a sua instabilidade emocional possa ser um risco ao seu time ou à performance do seu negócio, por exemplo. Muitas vezes, é o seu que está na reta.

Por outro lado, não há nada na vida que seja 100% sem riscos. Apostar em uma pessoa que chora e que traz sua vulnerabilidade à tona pode ser uma chance de ter alguém com você que tenha todas as características acima – que, convenhamos, são bem boas. Além disso, internamente você também pode ter suas inseguranças e se abrir com alguém e se permitir confiar em alguém com esse perfil pode te dar a coragem de ser um pouco mais quem você é e menos quem você acha que os outros querem que você seja.

Ainda não te convenci? Vou te dar um argumento matador.

Em uma reunião, um parceiro de trabalho que tive, ainda emocionado mas sem perder seu jeito mineiro divertido, contou essa história:

“Gente, não sei se vocês sabem, mas sabe aquele cachorro que falam que é o mais inteligente de todos? O Border Collie? Então: sempre que o dono vai embora, o Border Collie sempre chora. É super chorão. Então, quando você chorar, lembre-se: você pode ser o mais inteligente também”.

Confia em mim 😉

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